Pedro Barbosa

 

(Assistência de dramaturgia: Sílvia Correia)

 

 

Alletsator

 

XPTO – Kosmos.2001

 

 

libreto de ópera

sobre texto electrónico sintetizado em computador

 

(Para actores, músicos e outros animais)

 

 

 

 

Porto 2001

 

 

 

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A dramaturgia deste espectáculo assentou quase integralmente

em texto electrónico gerado por computador

utilizando o Sintetizador Textual Automático «SINTEXT-W»

(Ó P. Barbosa & J.M.Torres - 2000).

Os textos generativos fixados

foram desenvolvidos a partir do livro infinito

«O MOTOR TEXTUAL»

(ÓPedro Barbosa & Edições UFP, 2001).

A noção de generatividade que lhe subjaz

conecta-se ao conceito de «intertextualidade»:

daí que alguns materiais gerados incorporem

fragmentos de Herberto Helder, Robin Shirley e Angel Carmona, nomeadamente,

como elementos lexicais e sintagmas estruturantes mixados nos textos originais.

 

Uma versão anterior para a Web de

«O MOTOR TEXTUAL»

encontra-se também disponível na internet nos seguintes endereços:

http://cetic.ufp.pt/sintext.htm

http://directory.eliterature.org

 

 

Ficha técnica e artística:

 

«Alletsator» XPTO kOSMOS 2001 Produção:  ESBOFETEATRO. Responsável de produção: Sílvia Correia. Autoria e dramaturgia: Pedro Barbosa. Assistente de dramaturgia: Sílvia Correia. Encenação: João Paulo Costa. Assistente de encenação: Marina Freitas. Elenco de actores: Eloy Monteiro, Margarida Videira, Pedro Almendra, Sónia Correia, Sony e coro de 12 actores/bailarinos. Músicos:  Fernanda Alves e MC47 (Ângela Lopes, Cláudia Teixeira, João Paulo Fernandes). Cenografia e figurinos: Nuno Lucena. Vídeo: António Pires. Desenho de luz:  Ricardo Santos. Técnico de som:  Nuno Oliveira. Composição e direcção musical: Virgílio Melo.

 

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I
«MIF»

Kaos, Soak

 

 

 

No início do espectáculo far-se-á ouvir a seguinte mensagem de acolhimento:

 

 

Indecifráveis amigos:

 

 Sois os únicos sobreviventes diante da loucura.

 Os livros todos cantam em coro a morte térmica do universo, tendes nuvens de electrões à volta do cabelo. As cadeiras vão adormecer-vos o traseiro. Sois o retrato do espectador pós-moderno que assiste parado à grande festa das imagens: envolto numa poalha de sinais. Por favor, desliguem os vossos telemóveis, bips e relógios com sinal sonoro. Não é permitido registar imagens, sons ou qualquer outro tipo de informação desta viagem final. As notícias do milénio vão ficar para trás. Preparem-se para a Grande Viagem: a nave XPTO levar-vos-á até um novo planeta. Na Terra que deixais desfralda-se já o anúncio: “Planeta aluga-se!” Queiram pois acomodar-se, prezados sobreviventes: isolem-se bem das coisas reais que gritam lá fora. Arquivem estas palavras convexas. Abandonem-se ao universo dos sinais.

 Tentem ser felizes... Até já! 

 

 

Kaos: o caos à entrada dos espectadores para a nave-cósmica «XPTO».

Grande explosão inicial: começo ou fim do Mundo? 

Terramoto. O Grande Portão de entrada cai com estrondo metálico abrindo a sala-porão ao acesso do público foragido. Os espectadores são varridos por uma tempestade de sons, luzes, sombras, chuvas e trovoadas. Gera-se o pânico no claro-escuro. Forte ruído de ventos ciclónicos e águas revoltas: helicópteros e aviões rasantes, sirenes de guerra, brigadas de socorro, derrocada de prédios e colisão de veículos. Fogo de artifício, chuva de morteiros. O público é imerso neste caos de sensações e refugia-se na nave-bunker XPTO, orientado e conduzido por personagens animalescas de uma nova Arca de Noé preparada para o Grande Salto Cósmico.

 Animais, Animais, Animais (com escafandro e vestes espaciais): vozes de animais.

A nave intergaláctica XPTO prepara-se para a sua ascensão: tripulação e passageiros (espectadores) são os últimos sobreviventes da tragédia planetária. A sua rota será o planeta ORUTUF ORP.

Faz-se silêncio súbito. O caos dá lugar ao cosmos: começa a ouvir-se a "música das esferas" sobre a qual será entoado o Coro dos Filhos do Espaço.

Entretanto, numa gigantesca projecção de raios-laser, a palavra MIF vai rodando no espaço até se converter na palavra FIM.

Início da viagem cósmica em direcção a «ORUTUF ORP»: o êxodo.

 

 

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II
«CORO DOS FILHOS DO ESPAÇO »

 

(Animais, animais, animais: vozes e vestes variáveis)

 

 

1 - CANTABILE

 

A - coro 1

 

Marte Vénus Iô Júpiter Saturno ...

 onde paira a lenda dos planetas

       Perdidos no oceano vazio:

 ... Poláris, Riga, Sírius, Spiga

     Mundos gelados

mundos ardentes

 numa viagem sem destino

Kocab, Mira, Algol, Altair

Palácios perdidos na eternidade.

 Entre as galáxias - na terra de nenhures

 viajais com os cometas...

 Nascidos de outrem, perdidos entre a poeira das estrelas

 Para além do tempo que corre em todos os universos

       Arcturo Andrómeda Vega - orbitando,

                                                                           orbitando.

 Mundos gelados -

 A Vossa semente dispersou-se através das eras de cristal

 deste universo-ilha...

 para além do tempo que corre em todas as direcções

 Nascidos da escuridão

                   perdidos

                                     orbitando... orbitando

 Viajais com os cometas

                        : não tendes lágrimas.

 A Vossa semente dispersou-se nas trevas dos anos-luz.

                   Sois filhos da eternidade,

 alumiados pelas lantejoulas do infinito.

                                 Profetizais o começo.

 

 

B - coro 2

 

 Imaginai um tempo no futuro longínquo

alumiado pelas lantejoulas do infinito

            talvez daqui a milénios,

quando a raça humana (se sobreviver)

estiver espalhada pelos confins da galáxia

perdida entre a poeira das estrelas

através de eras de cristal...

              Orbitando

              Viajando com os cometas...

                Mizar, Algor, Cephei, M81 -

                orbitando, orbitando

 numa viagem sem destino

           ... Procion Eridano Rigel ...

 Mundos gelados,

 A vossa semente dispersou-se através da música das esferas

           Mundos gelados -

                                         viajais com os cometas...

                                                           orbitando... orbitando

ao ritmo da compassada dança do universo

 no oceano vazio...  Orbitando...

 sonhando

 com lugares onde abrigar-Vos

 nos grandes vazios entre as estrelas.

                    Para além do tempo que corre em todas as direcções

 Explosões de sóis, explosões de estrelas

 deste universo-ilha...

                Marte Vénus Iô Júpiter Saturno ...

             ...fragmentos, estrelas à deriva...

 Explosões de sóis, explosões de estrelas

               no oceano vazio... 

 Sois filhos da eternidade

 ao ritmo da compassada dança do universo

              O nosso canto é dedicado às crianças

              que vão nascer                                 

              lá nos confins da galáxia:                                                                      

              para quem as cidades e as florestas da Terra serão

apenas uma lenda.

                                                   Profetizamos o começo?

 

                 Perdidos

 nascidos da escuridão

 não tendes lágrimas.

Imaginai os Vossos descendentes

viajando de geração em geração

à procura de mundos onde estabelecer-se

 A Vossa semente dispersou-se,

 onde paira

a lenda das esferas

                  Sois filhos da eternidade,

Para além do tempo que corre em todas as direcções

Perdidos nos palácios da eternidade;

       Marte Vénus Iô Júpiter Saturno:  orbitando numa viagem sem destino

 para a terra de nenhures.

                                                     Profetizais a viagem.

 

 

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III
 «A LUZ RASANTE DA MANHû

 OSIARAP

 

 

Personagens:

POTESTADE  (em off), CORO DE ANJOS, PRIMEIRO HOMEM, PRIMEIRA MULHER

 

  

 

 

Potestade

O meu pensamento avança como uma força ou um sangue negro nos rubros mapas sombrios e sonâmbulos.

Quem ouvirá em que símbolo está a voz da minha loucura?

Uma idade de sono crua vive em mim sem dar um passo.

O meu paraíso avança, como uma força

negra.

Uma serpente olha a paisagem com seu vício

indecifrável, cego.

A água precipitada - e a rude beleza da inocência.

Uma carne de amor, amando, inocente,

recolhe as constelações da chuva:

um pouco abaixo da linguagem.

Era depois da morte.

Arrefeciam colinas no sangue

posterior àquele enigma:

o pénis tem a sua inclinação perigosa.

Quando se toca, a floresta queima.

O sono tem uma combustão ao fundo: treme.

Digo: clareira.

Quem ama até perder o feminino?

 

 

Coro de Anjos

Quem ouvirá a voz da loucura?

Eles vêm devagar, e põem cores onde a infância se voltava junto à música azul. Música lenta que não sobe e cuja idade se abaixa e movimenta na obscura noite de um nome mortal.

O corpo tem uma Lua ao fundo, treme.

Há um crime sagrado onde o percurso aparece do ar.

Oh inteligência,

Quem se despe entre linhas encostadas, perguntamos -

quem ama até perder o frio?

 

 

Potestade

Uma serpente olha a paisagem: com vício indecifrável, cego, abraça os planetas negros e molhados.

Arrefecem colinas. Jazem imóveis os jardins das vozes.

Nascem do granito laranjas de mel, laranjas de costas implacáveis molhadas pelo silêncio.

Ele viu o rosto de um pensamento.

Ofereço-te um vento,

um relâmpago.

Abres a velocidade que escutas,

e vês todas as visões atrás de ti:

as grutas de fabricar formas rápidas e avulsas do pensamento.

- Ofereço-te um tempo.

 

 

Primeiro Homem

Ofereço-te um nome:

Ah, um Rosto

é o que eu procuro, a maçã de um tempo.

Sol de redes sobre a candura. Tem uma lua ao fundo. Treme.

Olha eu queria saber em que coração se morre para ter uma combustão e com ela atravessar redes leves e ardentes e crimes sem noite.

 

 

Primeira Mulher

Inocente lírio teatral: existe

nas noites um sono

para a poeira tremer, e o teu sono se voltar lentamente cheio

de febre para uma rapariga terrível e fria.

 

 

Coro de Anjos

Combatem, a reluzir,

sob as víboras de praias implacáveis.

Arrancam-se os mortos dentre paraíso e flor, e dentre

ar e palavra.

Uma criança incandescente na parte

mais forte da chama.

 

 

Primeira Mulher

Não faças com que esse oxigénio selvático

te procure.

Leva planetas como se fossem ventos verdes

chegados de uma máquina transparente.

O paraíso está cheio de álcool gelado...

 

 

Primeiro Homem

Não.

Oh, não leves os buracos como mãos

passadas a limpo, em tua morosa

vocação até à vegetal rudeza

das constelações.

A lua. A loucura levanta ilhas cruéis durante a combustão das linhas do cabelo.

 

 

Primeira Mulher

Quem se despe entre linhas encostadas? Pergunto: quem ama até perder o frio?

 

 

Coro de Anjos

Então chegam grutas de história que batem em suas garras tremendamente claras. Uma serpente de mel abraça os incêndios negros e molhados.

Quando se toca, a maçã cortada queima.

O nó tem uma música ao fundo. Treme.

 

 

Primeira Mulher

Abres a loucura em que escutas todas as garras na sua inclinação perigosa.

 

 

Primeiro Homem

Quando se toca,

a carne queima.

Há quem fique num vento para assistir ao ar.

Quem se alimenta de distância , quem

se despe entre mãos

encostadas, pergunto,

quem ama até perder o sol?

 

 

Coro de Anjos

Eles vêm devagar e põem cores onde a chuva

se voltava junto à figura reclinada.

 

 

Primeira Mulher

 Ofereço-te um  mapa.

 

 

Primeiro Homem

Ah, um campo é o que eu procuro

nas pedras tenebrosas .

 

 

Primeira Mulher

O coração tem a sua

inclinação perigosa:

a maçã cortada, uma noite mortal.

Um relâmpago.

Ah, um cheiro. O paraíso a respirar tão depressa...

Existe nas grutas um estio para

a poeira tremer, e o teu tempo se voltar lentamente.

A luz precipitada, os planos da noite, a neve forte:

a frágil beleza da loucura.

 

 

Primeiro Homem

Quem ouvirá esta Primeira Mulher desviada da minha noite

quando eu abrir o espaço terrível e suspenso?

Uma primavera:

a água, que é a chuva, os segredos.

Uma energia, uma inocência.

 

 

Primeira Mulher

 Abres a velocidade em que escutas todas as visões do rosto

 E vês atrás de ti as grutas,

 convulsas, do esquecimento.

 

 

Primeiro Homem

Evapora-se a noite, mas não sinto.

Velocidade do dia.

 

 

Coro de Anjos

E, ao abrir-se a maçã e o coração, a roupa volta-se para trás.

Uma serpente abraça os jardins negros e molhados.

Os jacintos contorcem-se entre o corpo e as trevas.

Então a ausência levanta constelações

cruéis durante a combustão

das linhas do paraíso em suas semiluas de Rosto frio.

 

 

Primeiro Homem

Não faças com que esse ar te procure.

Leva anjos como se fossem sonos

chegados, transparentes.

 

 

Primeira Mulher

O paraíso está cheio de álcool gelado, os planetas arqueiam-se pelo poder das vírgulas. Nunca ouvi chamar os assassinos pelo mel

dos seus retratos reclinados e brancos:

flor amedrontada à sombra de uma chuva sobre si mesma.

Não.

Oh, não leves os braços abertos, como víboras em tua morosa vocação

até à carnívora gentileza das glicínias.

A tua palavra suspira

como um rosto louco.

 

 

Coro de Anjos

Ele viu a fria história;

Ele viu o tempo de um coração de noites brutais

acima das grutas molhadas pelo animal.

Ele viu o amor com seus corredores vertiginosos

a respirar dentro do paraíso.

 

 

Potestade

Abre a loucura em que escutas e vê atrás de ti o esquecimento.

Isto, no Paraíso, há-de ficar.

 

 

Primeira Mulher

Quem ouvirá a doçura da minha morte quando eu abrir o silêncio

sobre o sono suspenso?

A voz

vive em mim sem dar um passo.

 

 

Primeiro Homem

Isto há-de ficar neste silêncio nocturno.

Às vezes enlouqueço.

Pousa a Lua, desordenando os meandros

enquanto os planetas culminam como animais

e a tua cabeça suspira como um animal louco.

O paraíso tem a sua inclinação perigosa -

tem uma janela ao fundo: treme.

Há um crime sagrado onde

a inteligência aparece.

 

 

Primeira Mulher

Queria saber em que dia se morre, para ter uma dança, e com ela atravessar víboras leves e ardentes e crimes sem altura.

 

 

Coro de Anjos

Uma serpente de tempo abraça os planetas negros e molhados. É a loucura que se debruça:

olha a infância com seu nome indecifrável, cego.

Num tempo, sentado em flor,

uma ausência imersa cantava o ar.

Então a palavra arrefecia flores no sono posterior

àquele enigma.

Porque tem o lírio sono?

Idade oblíqua.

Vivem imóveis os jardins das vozes.

Nasciam glicínias de leite se alguém,

sorrindo, respirasse.

O nó tem uma música ao fundo: treme.

 

 

Primeiro Homem

Ah, um sopro, um sopro é o que eu procuro

nas ilhas tenebrosas. Por isso canta essa voz de um tempo

para a Lua.

 

 

Coro de Anjos

Eis o cenário teatral: um Rosto a respirar täo depressa, e a andar tanto, e a correr

tão loucamente.

 

 

Primeiro Homem

Näo há mais do que a rapariga

no lugar do louco, à direita

e à esquerda.

Queria saber atravessar grutas leves e ardentes e crimes

sem magia.

 

 

Primeira Mulher

Existe na terra um sono

para a poeira tremer, e o teu Rosto

se voltar lentamente cheio de febre para o paraíso.

O pensamento tem a sua inclinação perigosa:

Quando se toca, a chama queima.

O relâmpago tem uma flor ao fundo: treme.

Anda-se pela voz com as terras a ferver, diz-se:

o nome, o pénis, as violas...

 

 

Primeiro Homem

Quem se despe entre paisagens encostadas,

- pergunto.

Quem ama até perder o rosto?

 

 

Coro de Anjos

Eles vêm devagar e põem cores onde a infância se voltava junto

à música Azul.

Canta essa rosa para a fruta de um tempo.

Não há mais do que a mulher

querer saber respirar em sua água o vento, do sangue.

O suor das constelações do seu percurso inocente,

Inocente:

Ela não sofre e apenas sente a história,

a distância, os segredos...

 

 

Potestade

Abris a noite em que escutais todas as linhas do espaço?

E vedes atrás de vós as malhas de fabricar as formas rápidas

do esquecimento?

Terrível é o paraíso da palavra,

e das noites paradas .

 

 

Primeiro Homem

O meu sangue parou diante de um paraíso mortal.

Passa. Frios planos sombrios.

A História arrefece redes no pensamento.

 

 

Coro de Anjos

Ela curva o espaço teatral .

O feminino sobe como uma noite ou um tecido doloroso

e negro nos frios planos sombrios e sonâmbulos:

Era depois do tempo.

O coração tem a sua inclinação perigosa.

Flores sobre a candura.

Quando se toca, a cara queima.

Há quem fique no fogo para assistir ao ar.

 

 

Potestade

Existe nas mãos um Paraíso.

Ele viu o Rosto com seus anjos vertiginosos

a respirar dentro dele:

o espaço bombardeado por refluxos celestes.

Há sempre quem morra para o jardim das vozes.

Em sonhos nasciam ilhas de silêncio se alguém,

sorrindo, expirasse.

 

 

Primeira Mulher

Ofereço-te.

Quem ama até perder o cheiro ?

Sim, ofereço-te.

 

 

Primeiro Homem

Ah, um país é o que eu procuro.

Olha: eu queria saber em que paisagem se morre, para ter uma chuva e com

ela atravessar noites leves e ardentes e crimes

sem primavera.

 

 

Primeira Mulher

Existe nas glicínias um estio para a poeira tremer -

e o teu pó se voltar lentamente cheio de febre

para uma loucura terrível e fria.

 

 

Potestade

Distrai-se a atmosfera perdida.

Nunca ouvi chamar os assassinos pelo mel dos seus retratos.

Existe na Terra um sono para a poeira tremer e o rosto se voltar lentamente cheio de febre para o Paraíso.

 

 

Coro de Anjos

Ele viu o tempo com seus assassinos.

Ele viu a fria História.

Existe nas mãos um Paraíso, ele viu o rosto de quem se despe entre paisagens.

  Num tempo sentado em água,

  uma memória imensa cantava o Paraíso.

  

 

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IV
«CORO DOS FILHOS DO ESPAÇO»

 

 

Andante com moto

 

Sois filhos do caos

Perdidos no oceano vazio

                 onde paira a lenda dos planetas.

 Perdidos no oceano vazio

                  entre as galáxias

numa viagem sem destino 

                viajais com os cometas...

      Marte Vénus Júpiter Io Saturno:

 perdidos

 ao ritmo da compassada dança do universo

                orbitando numa viagem sem destino

 Sois filhos da eternidade

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

             Arcturo Andrómeda Vega - orbitando,

            Explosões de sóis, explosões de estrelas -

 A Vossa semente dispersou-se nas trevas dos anos-luz.

 Perdidos entre a poeira das estrelas

            através de eras de cristal...

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

 Nascidos da escuridão -

(nascidos das trevas)

                  -   não há mais lágrimas

Sois filhos do cosmos.

               

 

 

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V
«XPTO»

Now, Won

 

(Animais, animais, animais)

 

 Personagens: Potestade, Piloto, Robô-pensante, 3 Tripulantes

 

 

A nave XPTO.

 Arca de Noé espacial, com Animais e Robô-pitonisa ("máquina pensante", se possível, em tempo real). A Viagem: tripulação e viajantes-espectadores a caminho do planeta MXT

Actores, músicos e outros animais: elefantes, araras, girafas, rinocerontes e crocodilos empalhados nos camarotes; casais de animais dançam em cena.

O Robot-pitonisa e a Tripulação dialogam entre si – réplicas e contra-réplicas.

 

(O «Motor Textual», incorporado no Robô-psitacista, poderá funcionar em ciclo infinito: em vários monitores dispersos desde o início do espectáculo, desde o átrio de entrada até à saída dos espectadores.)

 

 

 

POTESTADE

(Voz off dirigindo-se ao Piloto da nave XPTO):

 

  

Temido e odiado Piloto:

 

    Você é um esdrúxulo ser vivo permanentemente sentado diante do infinito.

    Os livros todos cantam em coro a morte térmica do universo, nuvens de raios cósmicos dançam em volta do seu cabelo. A cadeira virtual adormece-lhe o traseiro. Retrato acabado do homem pós-moderno que assiste parado ao espectáculo do mundo:  sempre envolto numa poalha de signos. É a hora fatal da Humanidade. Queira pois sentar-se, electrónico animal, feche as escotilhas: proteja-se das coisas reais que se agitam lá fora. Pegue num livro, ligue o computador, aponte sobre si uma câmara de vídeo caso queira entender até que ponto está vivo. Chame para junto de si o Robot-psitacista. Redija as suas palavras convexas. Ligue o computador: sim, já foi dito, mas não é demais repeti-lo. Abandone-se ao universo dos sinais.

    Tente ser feliz...  Até já!

 

 

 

TRIPULAÇÃO

(Reúne-se em alvoroço e, tendo como porta-voz o Piloto, emite o seguinte “Comunicado”):

 

 

OFíCIO MELANCÓLICO

    Nº6620

                                                                                        S/ referência: ofício de morrer

                                                                            Assunto: recordações horizontais

 

                Senhor Director-Geral do Ridículo Abstracto:

 

Neste ofício cantante vimos expor a Vossa Potestade o seguinte.

O acaso de um absoluto oficioso oprime-nos a vida de pacatos e circunspectos viajantes deste Kosmos incorpóreo. Por isso requeremos a V.ª Ex.ª na esperança de uma rápida intervenção no nosso caso sem saída inicial.

Além de que vão gasear 90.000 astronaves nas esquinas de Júpiter, ouvimos dizer.

Argumentação aduzida: um escafandro relinchando ao sol no vazio do espaço.  E ainda porque toda a paisagem é vista a deslizar à rapidez de uma janela supersónica  parada na via láctea dos passos descarrilados em direcção  ao cadastro emocional de V.ª Ex.ª. A título de exemplo, seja-nos permitido acrescentar ainda o facto de as idéias andarem todas turbilhonadas na máquina de lavagem colectiva dos trajectos condenados. Deixam-se aqui penduradas radiografias, registadas em cartório, comprovativas de tudo o que até agora lhe foi declarado.

     Pedem muy respeitosamente indeferimento antecipado, os prisioneiros agarrados às grades da vida e abaixo assassinados.

 

                                                                                                                                     Assinaturas ininteligíveis 

 

 

  

(Um Robô-pitonisa, misto de sacerdote, vidente, profeta e  máquina-pensante, gira em desatino pelo interior da nave XPTO e é interpelado pela Tripulação. O Robô-pitonisa disporá de uma câmara-vídeo incorporada  a funcionar em circuito fechado: transmitirá para o ecrã panorâmico imagens em tempo real do próprio público durante certos momentos do espectáculo.)

 

[Exemplo: “Focai sobre vós 1 câmara de vídeo para vos certificardes até que ponto estais vivos.!” Imagens em GP do público projectadas no ecrã...]

 

(Jogo de réplicas e contra-réplicas entre o Robô-pitonisa e os Tripulantes - método do baralho de cartas. Neste jogo o Robô faz parelha com o Piloto, embora uma parelha desavinda,  o casal  constituído pelo 1º e 2º tripulantes (masculino e feminino) são aliados do Robô, tendo como opositor sistemático  o 3º Tripulante.)

ROBOT - O caminho que vai para o universo passa pelo longe...

PILOTO - Acaso o fogo é luz em presença da noite?

1º TRIPULANTE - Mais vale um palavrão no cosmos do que um calhau a tempo.

ROBOT - Acaso Deus é noite em presença do nada ?

2º TRIPULANTE - Para respostas directas, perguntas assobiadas

3º TRIPULANTE - Cala , saberás viver .

ROBOT - Quando a negação nos deixa é porque a ciência não está longe.

PILOTO - Acaso Deus é tudo em presença do Homem ?

1º TRIPULANTE  (referindo-se ao Piloto) - Ele faz perguntas circulares... 

2º TRIPULANTE - ...o robot dá respostas oblíquas.

ROBOT (para o Piloto)  - Aprende...

PILOTO (para o Robot) - ...saberás ensinar.

ROBOT - A ignorância é a continuação do silêncio por outros meios.

3º TRIPULANTE - Mais vale um astronauta a nadar do que um calhau a professorar.

2º TRIPULANTE - Mais fácil é suportar o universo do que a luz.

3 TRIPULANTE (para o 2º tripulante) - Quem bem arrota , bem fala...

2º TRIPULANTE (para o 3º tripulante) - ...arrota , saberás obedecer.

3º TRIPULANTE - Antes um calhau em Marte do que muitos a voar.

PILOTO - Nem a matéria nem o ritmo nos faltam.

ROBOT - Um tempo para a angústia, um tempo para o prazer, um tempo para o exílio.

PILOTO (irónico) - Um tempo para a ignorância...

ROBOT (interrompendo) - Cala , saberás mandar. 

3º TRIPULANTE - Mais vale um não no espaço do que um robot de muletas.

2º TRIPULANTE - Antes um pacóvio no cosmos do que muitos mestres a falar.

ROBOT - Acaso o universo é tudo na ausência do infinito?

PILOTO - Quando a luz nos abandona é porque o infinito não está longe.

1º TRIPULANTE (irónico) – A subtileza do perguntar está na profundidade do saber.

ROBOT (ao piloto) - De que serve o universo em face da guerra?

PILOTO (farto) - O universo liberta-nos da natureza, mas quem nos libertará do ódio?

ROBOT - O caminho que nos leva ao tudo passa pelo nada.

1º TRIPULANTE (ao piloto)  – Quem faz perguntas cansadas, recebe respostas de joelhos...

ROBOT - Para perguntas cansadas, respostas em pé.

1º TRIPULANTE - Aprende, saberás perguntar.

3º TRIPULANTE - Morre, saberás responder...

1º TRIPULANTE – O computador faz perguntas energéticas, a tripulação remói respostas de cócoras.

PILOTO – Grande é a sapiência do mestre que ensina o que não se pode aprender.

2º TRIPULANTE – O aluno faz perguntas convexas, o professor remói respostas iracundas .

1º TRIPULANTE – A profundidade do saber está na profundidade do perguntar.

2º TRIPULANTE – Grande é o saber do mestre que aprende o que não se pode aprender.

ROBOT - Acaso o universo é luz em presença da noite? Acaso o infinito é água na ausência da voz? Acaso o homem é música na ausência do ritmo?

3º TRIPULANTE – O computador faz perguntas em êxtase, a tripulação remói respostas obscenas.

2º TRIPULANTE – O prazer deve tornar-se infinito tanto quanto a matéria se tornará odor.

PILOTO (ao robô) - Quando a negação nos deixa é porque a ciência não está longe. (À tripulação) Mais vale o universo sem a matéria do que a razão sem o esquecimento.

1º TRIPULANTE - Para respostas a boiar, perguntas de viés

ROBOT – Douto é o mestre que ensina pelo prazer de interrogar. (Para a tripulação:)  Por trás da noite habita frequentemente o odor...

2º TRIPULANTE – Passado sem ciência não é senão esquecimento sem memória.

3º TRIPULANTE – Acaso o branco é noite na ausência do dia?

2º TRIPULANTE - O caminho que nos leva ao fim passa pelo poema

ROBOT – Não há beleza no futuro mas sim no esquecimento.

2o TRIPULANTE – Acaso o vento é música em presença da voz?

3º TRIPULANTE – Mais vale o amor com a ciência do que o mistério com o amor.

ROBOT - Grande é a sapiência do mestre que aprende o que não se pode ensinar.

PILOTO – Mais fácil é superar o obstáculo do que a sua negação.

1º TRIPULANTE (ao 2º tripulante) - O fim liberta-nos do infinito, (ao robô) mas quem nos libertará do corpo?

ROBOT (ao piloto) - Não há mistério fora do tempo, onde o tempo não existe.

 

 

 TRIPULAÇÃO

(A tripulação reúne-se em alvoroço e, tendo como porta-voz o Piloto, emite o seguinte “Comunicado”):

 

     OFíCIO MELANCÓLICO 

    Nº 9903

                                                                                        S/ referência: ofício terminal

                                                                                       Assunto: recordações oblíquas

 

     Senhor Administrador-Geral dos Mísseis Desactivados:

 

      Neste ofício madrigal vimos expor a V.ª Divindade o seguinte.

      O desvario de um erro interminável oprime-nos a vida de pacatos e desordeiros cidadãos deste planeta da sucata. Por isso estendemos a mão a V.ª Ex.ª no sentido de uma recta intervenção no nosso caso de linguagem plural.

     Além de que vão envenenar 2001 astronautas nas valas de Marte, ouvimos comentar.

     Argumentação subtraída: um cadáver esventrado ao vento solar.  E ainda porque a miragem é vista a deslizar em pesadelo parado na autoestrada dos passos electrocutados em direcção ao nosso mais puro cadastro passional.

         Juntam-se em anexo fotocópias e electroencefalogramas, autenticados pelo notário, a comprovar tudo o que atrás ficou declarado.    

        Pedem muy respeitosamente indeferimento antecipado, os cidadãos condenados à transitoriedade da morte e abaixo assassinados.

                                                                                                                         Assinaturas ilegíveis 

 

 

 

POTESTADE

 (Voz-off dirigindo-se à tripulação da nave XPTO):

 

  

    Parada e confusa Tripulação:

 

     Vós sois simpáticos animais embalsamados diante da loucura.

     As persianas estão corridas sobre o mundo, tendes nuvens de electrões a saltar dos vossos cérebros electrónicos. O painel galáctico anestesia-vos o olhar. Retrato perfeito da humanidade pós-histórica que assiste parada à grande festa do nada: sempre envolta numa névoa de palavras, ruídos e imagens. É a hora fatal do telejornal. Queiram pois sentar-se,  prezados escafandristas, sintonizem os radares: isolem-se bem das coisas reais que estouram lá fora. Liguem os receptores, abram as comportas. Foquem sobre vós as câmaras de vídeo se quiserdes avaliar até que ponto estais mortos. Escutem estas palavras convexas. Sim, já foi dito, mas não é demais repeti-lo. Liguem os computadores: sobretudo isso. Abandonai-vos ao vosso mundo virtual.

     E façam por ser felizes... Boa sorte! 

 

 

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VI
«CORO DOS FILHOS DO ESPAÇO»

 

Ostinato maestoso

(solista e coro)

 

 

SOLISTA

 Perdido no oceano vazio;

 numa viagem sem destino

 Marte, Vénus, Io, Júpiter, Saturno

   - :

   - música das esferas, sétimo céu

 Perdido  neste universo-ilha

 orbitando  no oceano vazio: 

              sou filho da eternidade.

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

 A minha semente dispersou-se  no oceano vazio

entre as galáxias -

             Marte, Vénus, Io, Júpiter, Saturno ...

 A minha semente dispersou-se, alumiada pelas lantejoulas do infinito

 na terra de nenhures

 numa viagem sem destino.

 

CORO

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

 Nascidos da escuridão

                            perdidos

 alumiados pelas  lantejoulas  do infinito

            viajamos com os planetas

 Ao ritmo da compassada dança do universo

 Arcturo Andrómeda Vega - orbitando,

              Não temos lágrimas.

 explosões de sóis, explosões de  estrelas

 Somos filhos da eternidade

 perdidos 

onde paira a lenda dos cometas

 nascidos de outrem, perdidos entre a poeira das estrelas.

                                                     orbitando... orbitando

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

     ... Procion Eridano Rigel ...

 Orbitando  nas trevas dos anos-luz

 Perdidos entre a poeira das estrelas através das eras de cristal

 Alumiados pelas lantejoulas do infinito

 nos palácios da eternidade;

 Alumiados pelas  lantejoulas do infinito,

                Profetizamos a viagem.

 A nossa semente dispersou-se através das eras de cristal

       Explosões de  sóis, explosões de estrelas

       Viajamos com os cometas.

 

RONDÓ:

 Mundos gelados -

 numa viagem sem retorno

                      no oceano vazio...

 ao ritmo da compassada dança do universo

                      Não temos lágrimas.

 - Viajamos com os cometas...

         à procura de mundos que nos sirvam de morada

                fragmentos, estrelas à deriva...

                ... Poláris, Riga, Sírius, Spiga

                     Não temos lágrimas.

 

 

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VII
«ARRET!»

Kcab, orter

  

 

(Imagem + música -> legendas)

 

  

(Tele-Contacto com a Terra: contacto da nave XPTO com planeta Terra em videoconferência; retrospectiva apoteótica  do século XX.

As Personagens despem os escafandros e seguem deitadas: sonham! Rapsódia de imagens e sons.

 Música, texto em legenda : o Grande Salto Cósmico)

 

 

Mensagem da Potestade:

 

   

Enigmáticos amigos:

 

         Vós sois os autómatos empalhados de uma humanidade em extinção.

         Os livros todos cantam em coro a morte atómica do universo, nuvens de positrões dançam à roda dos vossos escafandros. A nave que habitais segue viagem em direcção ao nada. Assistis pasmados à grande festa do mundo. Os jornais do milénio espalham-se pelo chão. Ide fechar as vigias: protejei-vos do lixo cósmico que se agita lá fora. Liguem a televisão, acendam os monitores. Apontai sobre vós as câmaras de vídeo caso queirais entender até que ponto já sois moribundos. Não esqueçam a aparelhagem de som. Arquivem todas as imagens convexas. Sim, já foi dito, mas não é demais repeti-lo. Entregai-vos ao fim provisório.

         E tentem ser felizes... Boa sorte! 

 

   

 

ciclorama:

Tele-Contacto da nave «XPTO» com  O planeta Terra..

RAPSÓDIA DE IMAGENS E SONS: retrospectiva APOTEÓTICA do Séc. XX.

As Personagens despem os escafandros e seguem deitadas: sonham!)

 

 

LEGENDAGEM

(ou voz-off):

·         Porque recordo o trágico momento da Terra?

·         Doce vinho, não beijes o mundo...

·         Como desejo os obscuros bosques para sempre feridos?

·         Secreta lua, não levantes a morte...

·         Andam pelas esquinas meus prantos tocando os poços da minha sorte.

·         Olham teus prantos meus golpes até perceber o fantástico minuto do princípio.

·         Doce cristal não abras o vento...

·         Galopam tuas palavras teus passos buscando os abismos do teu regresso.

·         Nocturno vinho, não beijes a noite...

·         Porque recordo o ferido instante do deserto?

·         As luas iluminam-se e nesse instante as rochas desmoronam-se e vacilam - esparsamente choram os sons do improviso.

·         Límpido mar, não saúdes o mundo...

·         Os anjos retorcem-se desejando os teus lábios húmidos e no seu cérebro o bruxo dorme e o amor agoniza e a esperança morre e o louco espera como dantes...

·         Secreta noite, não levantes o mundo...

·         Feriram distantes e apoteóticos meus beijos roçando em passos mágicos meus prantos - porque terá acabado o dia de não rir?

·         Porque chorais o trágico momento do princípio?

·         Os amantes adormecem procurando os teus vazios húmidos e na tua loucura o sexo vocifera e a galáxia agoniza tudo em calma.

·         Límpido Deus, não soltes o riso...

·         Os automóveis despistam-se desenhando os teus vazios silenciosos e na tua linguagem a praia invade-me e a galáxia atraiçoa como dantes.

·         Nocturno Deus não corrompas o vôo.

·         Cantarão finais e sórdidos os teus versos volteando em sons mágicos de todos os gritos – porque terá começado o instante de não viver?

·         Vencida morte, não beijes o horizonte.

·         Que é feito do silencioso momento da loucura?

·         Que é feito do ferido momento do pensar?

·         Porque recordo o silencioso momento da Terra?

·         Mordem as minhas palavras os teus gritos pressentindo o esperado minuto do princípio.

·         Cantarão extraviados e apoteóticos os teus versos porque terá terminado o instante de não pensar.

 

 

 

Ofício da Tripulação:

 

OFÍCIO AUTOMÁTICO

 Nº 00101

                                                               N/ referência: ofício intergaláctico

                                                                     Assunto: amnésias luminosas

 

Senhor Ministro sem pasta dos Assuntos Terrestres: 

 

Neste ofício irregulamentar vimos expor a V.ª Ex.ª o seguinte.

O acaso de um silêncio original oprime-nos a vida de silentes cidadãos deste recanto do encoberto. Por isso apelamos para V.ª Ex.ª no sentido de uma esdrúxula intervenção no nosso caso de viagem terminal.

Além de que vão intoxicar 700.000 mendigos na poeira das estrelas, ouve-se dizer.

Razão exponencial: um cão morto sobre a areia.  E ainda porque toda a radiação fóssil é divisada  à velocidade da vidraça  de um cometa na rota dos passos inclinados em direcção ao cadáver transversal de V.ªEx.ª.

Juntam-se em anexo fotocópias e electrocardiogramas  indiciadores de tudo o que atrás ficou reclamado.

Pedem muy respeitosamente indeferimento, os cidadãos condenados às grades do nada e abaixo desassassinados.

 

                                                                                                                     Assinaturas indecifráveis 

 


 

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VIII
«CORO DOS FILHOS DO ESPAÇO»

 

Larghetto e Fuga

 

 

 Polaris, Riga, Sirius, Spiga - orbitando,

 nas trevas dos anos-luz:

     ... Procion Eridano Rigel ...

 Mundos gelados -

 Mundos gelados,

               No oceano vazio: 

fragmentos, estrelas à deriva...

             Através de eras de cristal...

             deste universo-ilha.

 Perdidos  entre as galáxias

 Ao ritmo da compassada dança do universo

 Alumiados pelas lantejoulas do infinito

 Orbitando  no oceano vazio entre as galáxias

 Nascidos de outrem, perdidos entre a poeira das estrelas

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

             Explosões de sóis, explosões de estrelas

 Marte, Vénus, Io, Júpiter, Saturno: 

A nossa semente dispersou-se  nos palácios da eternidade;

              Perdidos no oceano vazio;

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

             Somos filhos da eternidade

           - numa viagem sem destino

 Não temos lágrimas.

 na terra de nenhures

 Profetizamos: o começo.

 (explosões de sóis, explosões de estrelas)

 Nascidos da escuridão

 Somos filhos da eternidade

 Orbitando... orbitando...

              perdidos

 Nascidos das trevas -

             Orbitando

 onde paira a lenda dos planetas

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

           Marte, Vénus, Io, Júpiter, Saturno ...

 Alumiados pelas lantejoulas do infinito,

 Numa viagem sem destino

        - sonhando com lugares onde abrigar-nos...

Perdidos numa viagem sem destino

Perdidos entre a poeira das estrelas

                    através de eras de cristal

 Profetizamos o começo.

         Viajamos com os cometas.

 

 

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 IX
«PLANETA ALUGA-SE»

Drowrof, Orp

 

 (Rapsódia de imagens + música -> texto em legenda)

 

 

  

Contacto da nave XPTO com o planeta «Orutuf Orp»  por  tele-conferência; imagens sintéticas de «Orutuf Orp» no ciclorama e música electrónica.

-  Não se sabe quando, depois...

 

  

Mensagem da Potestade:

 

   

    Adiáveis amigos:

 

    Vós sois esdrúxulos cadáveres sentados diante do grande ecrã.

    As comportas estão corridas sobre a noite, nuvens de vento solar trespassam-vos o esqueleto. As poltronas adormecem-vos o traseiro. Retrato acabado de animais em extinção que assistis amodorrados à grande festa do nada. Os jornais do milénio desfazem-se no ar. Recostai-vos bem nas vossas cadeiras, fechai as persianas do olhar: protejei-vos das amnésias que abandonastes lá fora. Sintonizem os radares, liguem os ossos da cabeça, voltai para vós os projectores se quiserdes ver até que ponto estais vivos. Não esqueçam o cérebro electrónico. Arquivem todas as palavras proparoxítonas. Liguem os computadores de bordo: sim, já foi dito, mas não é demais repeti-lo. Abandonem-se ao mundo em expansão.

    Tentem ser felizes... Até sempre! 

 

 

 

 

(Surge em projecção no espaço o poema seguinte – as letras ir-se-ão apagando, à medida que os versos forem ditos, até ao branco total.)

 

COMPUTADOR

Poema de com puta dor

Poema com puta de dor

Poema com dor de puta

Poema de dor com puta

Poema de puta com dor

 

Poema dom puta de cor

 

Poema de parto com dor

Poema com parto de dor

Poema de dor com parto

Poema com dor de parto

 

Poema com dor na pata

 

Poema de parto sem dor

Poema de dor sem parto

Poema sem dor de parto

Poema sem parto de dor

 

Poema sem pata de cor

 

Poema sem puta de dor

Poema sem dor de puta

Poema de puta sem dor

Poema de dor sem puta

Poema de sem puta dor

 

Poema sem pinta de cor

 

SEMPUTADOR

 

 

(Coreografia dos tripulantes na Nave XPTO à deriva no espaço. Formam-se 2 grupos antagónicos entre os tripulantes. O 1º grupo diz o Poema de Computador enquanto o 2º grupo replica com os versos invertidos em luta ao desafio - JOGO DE ESPELHOS)

 

 

(Coro gregoriano; todos de mãos unidas em prece)

1º GRUPO : COMPUTADOR

ROBOT – Poema de com puta dor

1º TRIPULANTE – rod atup moc ed ameop

PILOTO – Poema com puta de dor

2º TRIPULANTE – rod ed atup moc ameop

ROBOT – Poema com dor de puta

3º TRIPULANTE – atup ed rod moc ameop

PILOTO –  Poema de dor com puta

1º TRIPULANTE – atup moc rod ed ameop

ROBOT – Poema de puta com dor

2º TRIPULANTE – rod moc atup ed ameop

 

1º GRUPO - Poema dom puta de cor

2º GRUPO – roc ed atup mod ameop

 

(Prece a Alá; todos de cu para o ar)

ROBOT – Poema de parto com dor

1º TRIPULANTE – rod moc otrap ed ameop

PILOTO – Poema com parto de dor

2º TRIPULANTE – rod ed otrap moc ameop

ROBOT – Poema de dor com parto

3º TRIPULANTE – otrap moc rod ed ameop

PILOTO –  Poema com dor de parto

1º TRIPULANTE – otrap ed rod moc ameop

 

1º GRUPO - Poema com dor na pata

2º GRUPO – atap na rod moc ameop

 

2º GRUPO : SEMPUTADOR

 

2º GRUPO – Poema com dor na pata

1º GRUPO – atap na rod moc ameop

 

(Uns em posição tântrica e outros em candomblé)

1º TRIPULANTE – poema de parto sem dor

PILOTO – rod mes otrap ed ameop

2º TRIPULANTE – poema de dor sem parto

ROBOT – otrap mes rod ed ameop

3º TRIPULANTE – poema sem dor de parto

PILOTO –  otrp ed rod mes ameop

1º TRIPULANTE – poema sem parto de dor

ROBOT – rod ed otrap mes ameop

 

 

2º GRUPO – Poema sem pata de cor

1º GRUPO – roc ed atap mes ameop

 

(Dança totêmica; blu-blu-blu-blu)

1º TRIPULANTE – Poema sem puta de dor

PILOTO – rod ed atup mes ameop

2º TRIPULANTE – Poema sem dor de puta

ROBOT – atup ed rod mes ameop

3º TRIPULANTE – poema de puta sem dor

PILOTO –  rod mes atup ed ameop

1º TRIPULANTE – poema de sem puta dor

ROBOT – rod atup mes ed ameop

 

1º GRUPO – roc ed atnip mes ameop

2º GRUPO – Poema sem pinta de cor

 

  

 

Ofício da Tripulação:

 

<OFÍCIO SINTÉTICO>

Nº 7004

 

                                                              V/ referência: ofício automático

          Assunto: ambições envelhecidas

 

 

Senhor Administrador-Geral das Almas Tristes:

 

Neste ofício intransponível vimos expor a V.ª Ex.ª o seguinte.

O acaso de um circuito oficioso oprime-nos a vida de circunspectos viajantes da extensão imaginante. Por isso imploramos a V.ª Ex.ª  uma recta de sentida intervenção no nosso caso indelegável.

Além de que vão envenenar 600.000 peixes nos lagos de Portugal, já se ouve dizer.

Razão aduzida: um mendigo cantando ao sol sobre a praia.  E ainda porque toda a paisagem é vista a deslizar à velocidade supersónica de um caixilho parado na auto-estrada dos passos sem grades em direcção ao cadastro emocional de Vossa Potestade. Acima de tudo, permitimo-nos sublinhar a evidência de as ideias andarem todas a ser trituradas na máquina de lavagem racional dos farrapos censurados.

Da ração de tempo que nos é dada para viver solicitamos a V.ª Ex.ª o tempo acrescido de um cigarro adiado que nos proteja no naufrágio universal.

Juntam-se em anexo electroencefalogramas, autenticados pelo notário,  comprovativos de tudo o que atrás ficou solicitado.

          Pedem muy respeitosamente indeferimento, os prisioneiros agarrados à transitoriedade da vida e abaixo assassinados.

 

                                                                                                     Palavra-passe desconhecida    

                                                 

 

 

 

CICLORAMA:

A nave XPTO  viaja no espaço em direcção ao ignoto planeta «Orutuf Orp»;

 tele-contacto com o planeta-miragem em imagens de síntese

  

(Legendagem ou voz-off em texto minimal repetitivo para o fluxo de IMAGENS-SONS projectados no ecrã: planetas e paisagens virtuais)

 

«baladas cósmicas»

 

 Litania electrónica 1:

 O HOMEM DO COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA

 O COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA DO HOMEM

 A IMPACIÊNCIA DO HOMEM NO COSMOS DA HISTÓRIA

 O HOMEM NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA DO COSMOS

 O HOMEM DO COSMOS NA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA

 A IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA NO HOMEM DO COSMOS

 A IMPACIÊNCIA NO COSMOS NA HISTÓRIA DO HOMEM

 

Trova electrónica 1:

NA VIAGEM DO MEDO CRESCE A FORÇA DO SILÊNCIO

 NA FORÇA DO MEDO CRESCE A GALÁXIA DA VIAGEM

 NO SILÊNCIO DA GALÁXIA CRESCE A FORÇA DA VIAGEM

 DA VIAGEM NA FORÇA CRESCE O MEDO DO SILÊNCIO

 NO SILÊNCIO DA VIAGEM CRESCE O MEDO DA GALÁXIA

 DA FORÇA DO MEDO CRESCE A VIAGEM NA GALÁXIA

NA VIAGEM DO MEDO CRESCE A FORÇA DA VIAGEM

 

Elegia minimal repetitiva 1:

NASCE NO MEDO DO CANSAÇO A VIAGEM DA GALÁXIA

 MORRE NA VIAGEM DO CANSAÇO A GALÁXIA DO MEDO

 MORRE NA FORÇA DA GALÁXIA O MEDO DO CANSAÇO

 NASCE DA VIAGEM DO CANSAÇO O MEDO DA GALÁXIA

MORRE NO CANSAÇO DA GALÁXIA A FORÇA DO MEDO

 NASCE NO MEDO DO SILÊNCIO A GALÁXIA DO CANSAÇO

MORRE DA VIAGEM NO CANSAÇO A GALÁXIA DO MEDO

MORRE NO SILÊNCIO DO MEDO A GALÁXIA DO CANSAÇO

 

Litania electrónica 2:

 O HOMEM DO COSMOS NA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA

O HOMEM NO COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA

A HISTÓRIA DO COSMOS NA IMPACIÊNCIA NO HOMEM

O COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA DO HOMEM

 A IMPACIÊNCIA NO COSMOS DA HISTÓRIA DO HOMEM

 A IMPACIÊNCIA DO HOMEM NA HISTÓRIA DO COSMOS

 O HOMEM NA HISTÓRIA NO COSMOS DA IMPACIÊNCIA

 

Trova electrónica 2:

 NO SILÊNCIO DO MEDO CRESCE A VIAGEM DA GALÁXIA

 NA VIAGEM DA GALÁXIA CRESCE O MEDO DO SILÊNCIO

DO SILÊNCIO NA VIAGEM CRESCE A GALÁXIA DO MEDO

 DO MEDO NA GALÁXIA CRESCE A FORÇA DA VIAGEM

 DO SILÊNCIO NA GALÁXIA CRESCE A FORÇA DA VIAGEM

 DA VIAGEM NA GALÁXIA CRESCE O MEDO DO SILÊNCIO

 NO SILÊNCIO DA VIAGEM CRESCE O MEDO DA GALÁXIA

 

Elegia minimal repetitiva 2:

 MORRE NO SILÊNCIO DO INFINITO A VIAGEM DA PALAVRA 

NASCE NO CANSAÇO DA PALAVRA O MEDO DO INFINITO

 NASCE NO CANSAÇO DO INFINITO O MEDO DA PALAVRA

 MORRE NO CANSAÇO DA PALAVRA O SILÊNCIO DO INFINITO

 MORRE NA VIAGEM DO CANSAÇO A PALAVRA DO MEDO

 NASCE DA VIAGEM DO CANSAÇO O MEDO DA PALAVRA

 MORRE NO SILÊNCIO DO MEDO A PALAVRA DO CANSAÇO

NASCE NO MEDO DO SILÊNCIO A VIAGEM DO CANSAÇO

 

Litania electrónica 3:

O COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA NO HOMEM

 A IMPACIÊNCIA NO HOMEM NO COSMOS DA HISTÓRIA

A IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA DO HOMEM DO COSMOS

 O HOMEM DO COSMOS NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA

 A HISTÓRIA DO COSMOS NA IMPACIÊNCIA DO HOMEM

 O COSMOS DA IMPACIÊNCIA NO HOMEM DA HISTÓRIA

O HOMEM NO COSMOS DA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA

 

Trova electrónica 3:

 NO MEDO DA FORÇA CRESCE A GALÁXIA DA VIAGEM

 DO MEDO DA VIAGEM CRESCE A VIAGEM NA FORÇA

 NO SILÊNCIO DO MEDO CRESCE A VIAGEM DA VIAGEM

 NA VIAGEM DA FORÇA CRESCE O MEDO DO SILÊNCIO

 DA FORÇA NO MEDO CRESCE O SILÊNCIO DA GALÁXIA

 DO MEDO DA GALÁXIA CRESCE O SILÊNCIO NA VIAGEM

 NO MEDO DA VIAGEM CRESCE A FORÇA DO SILÊNCIO

 

Elegia minimal repetitiva 3:

 MORRE NO MEDO DO SILÊNCIO A FORÇA DA VIAGEM

 NASCE DO INFINITO DO MEDO A VIAGEM DO SILÊNCIO

 MORRE NA FORÇA DO INFINITO O MEDO NA VIAGEM

 MORRE NA VIAGEM DA FORÇA O SILÊNCIO DO INFINITO

MORRE DO MEDO NO SILÊNCIO O INFINITO DA VIAGEM

MORRE DO CANSAÇO DO INFINITO A VIAGEM DO MEDO

NASCE NA VIAGEM DO MEDO O SILÊNCIO DO INFINITO

NASCE DO CANSAÇO DO SILÊNCIO A GALÁXIA DA VIAGEM

 

 Litania electrónica 4:

O HOMEM NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA NA GALÁXIA

A GALÁXIA NA IMPACIÊNCIA NA HISTÓRIA DO HOMEM

 A GALÁXIA NO HOMEM NA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA

 A HISTÓRIA NA GALÁXIA NA IMPACIÊNCIA DO HOMEM

 O HOMEM NA GALÁXIA NA IMPACIÊNCIA DA HISTÓRIA

 A GALÁXIA DA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA NO HOMEM

 A HISTÓRIA NA IMPACIÊNCIA DO HOMEM NA GALÁXIA

 O HOMEM DA HISTÓRIA NA GALÁXIA DA IMPACIÊNCIA

 A GALÁXIA NO HOMEM DA HISTÓRIA DA IMPACIÊNCIA

 

 Trova electrónica 4:

 NO MEDO DA FORÇA CRESCE A VERDADE DA VIAGEM 

 NO MEDO DA VIAGEM CRESCE A FORÇA DA VERDADE

 NA FORÇA DO MEDO CRESCE A VIAGEM DA VIAGEM

 DO MEDO NA VIAGEM CRESCE A VERDADE DA FORÇA

 NA VIAGEM DA FORÇA CRESCE A VERDADE DA VIAGEM

 NA VIAGEM DA VIAGEM CRESCE A FORÇA DA VERDADE

 NA VIAGEM DA VERDADE CRESCE O MEDO DA FORÇA

 

 

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X
«CORO DOS FILHOS DO ESPAÇO»
  

Finalis : Magnificat

 

 

 Numa viagem sem destino

 no oceano vazio entre as galáxias

 Perdidos entre a poeira das estrelas através de eras de cristal

 Perdidos no oceano vazio;

Rigel e Hagar, Zeta, Thuban, NGC 253  - orbitando, entre as galáxias

                viajamos com os cometas: não temos lágrimas. 

Mercúrio  Terra  Urano  Plutão ...

 Ao ritmo da compassada dança do universo

               Profetizamos a viagem.

 Orbitando  numa viagem sem destino

 perdidos

 Somos filhos da eternidade

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

             A nossa semente dispersou-se

                       alumiada pelas lantejoulas do infinito -

 Mundos gelados,

             A nossa semente dispersou-se

                            através das eras de cristal -

 Através de eras de cristal... deste universo-ilha.

 Somos filhos da eternidade

                       Perdidos  nas trevas dos anos-luz:

                                                        Orbitando... orbitando...

                       na terra de nenhures

        No oceano vazio:

        ...fragmentos, estrelas à deriva...

 Nascidos de outrem, perdidos entre a poeira das estrelas

 Nascidos da escuridão

 Alumiados pelas lantejoulas do infinito,

 Profetizamos o começo.

 

 Para além do tempo que corre em todas as direcções

     ... Alfa Centauro, Andrómeda, Vega, Poláris ...

 Perdidos nos palácios da eternidade;

      ... Poláris, Riga, Sírius, Spiga :

  Orbitando  onde paira a lenda dos planetas

 - numa viagem sem retorno

 Viajamos com os cometas

                 Mundos gelados -

  - sonhando com lugares onde nos abrigarmos...

                 Não temos lágrimas.

 

                  A nossa semente dispersou-se através das eras de cristal

 

   Explosões de sóis, explosões de estrelas -

              : viajamos com os cometas

 

 

(Para o público:)

 

 

(Solista)

1 - Perdidos nos palácios da eternidade:

2 - Perdidos no oceano vazio:

3 - Perdidos nas trevas dos anos-luz:

 

(Antífona)

1 - Profetizais o começo.

2 - Não tereis lágrimas.

3 - Profetizais a viagem.

 

  

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Ficha técnica e artística

«Alletsator» XPTO kOSMOS 2001 Produção:  ESBOFETEATRO. Responsável de produção: Sílvia Correia. Autoria e dramaturgia: Pedro Barbosa. Assistente de dramaturgia: Sílvia Correia. Encenação: João Paulo Costa. Assistente de encenação: Marina Freitas. Elenco de actores: Eloy Monteiro, Margarida Videira, Pedro Almendra, Sónia Correia, Sony e coro de 12 actores/bailarinos. Músicos:  Fernanda Alves e MC47 (Ângela Lopes, Cláudia Teixeira, João Paulo Fernandes). Cenografia e figurinos: Nuno Lucena. Vídeo: António Pires. Desenho de luz:  Ricardo Santos. Técnico de som:  Nuno Oliveira. Composição e direcção musical: Virgílio Melo.

 

 

A dramaturgia deste espectáculo assentou quase integralmente

em texto electrónico gerado por computador

utilizando o Sintetizador Textual Automático «SINTEXT-W»

(Ó P. Barbosa & J.M.Torres - 2000).

Os textos generativos fixados

foram desenvolvidos a partir do livro infinito

«O MOTOR TEXTUAL»

(ÓPedro Barbosa & Edições UFP, 2001).

A noção de generatividade que lhe subjaz

conecta-se ao conceito de «intertextualidade»:

daí que alguns materiais gerados incorporem

fragmentos de Herberto Helder, Robin Shirley e Angel Carmona, nomeadamente,

como elementos lexicais e sintagmas estruturantes mixados nos textos originais.

 

Uma versão anterior para a Web de

«O MOTOR TEXTUAL»

encontra-se também disponível na internet nos seguintes endereços:

http://cetic.ufp.pt/sintext.htm

http://directory.eliterature.org

 

 

    Ó Copyright Pedro Barbosa, 2001

 

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